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Notícies :: globalització neoliberal
Realismo radical da imaginação sem pudores
16 abr 2004
A autogestão liberta os empregados da ditadura do patrão. O destino do dinheiro obtido pela empresa é determinado em assembléias, onde todos têm igual direito à palavra. Mas estamos vivendo um momento decisivo na história da humanidade. As tecnologias permitem produzir cada vez mais coisas com cada vez menos trabalho. Por toda a parte, o desemprego assume proporções assustadoras...
O REALISMO RADICAL DA IMAGINAÃÃO SEM PUDORES

Anônimo ( sequelaurbana ARROBA yahoo.com.br )

Estamos vivendo um momento decisivo na história da humanidade. No mundo inteiro, as tecnologias desenvolvidas pelo capital tornam o trabalho humano um fator insignificante no processo produtivo - as tecnologias permitem produzir cada vez mais coisas com cada vez menos trabalho.

Cada novo tipo de trabalho que aparece (por exemplo, o trabalho de operador do computador que controla uma fábrica automatizada) só surge para mandar centenas de outros trabalhadores para a rua. Por toda a parte, o desemprego assume proporções assustadoras. Cada vez mais pessoas não encontram nenhuma maneira de conseguir dinheiro pra comer. A angústia, o stress, o pavor de ser jogado na rua, passam a ser os sentimentos predominantes daqueles que ainda têm algum trabalho, e que, para não perdê-lo, se vêem obrigados a aceitar uma exploração cada vez mais brutal pelo capital. Para os que não têm como conseguir trabalho, só resta a violência cega na busca por comida.

De fato, este mundo está cada vez mais indigno para ser habitado por gente. Não é a toa que todos querem fugir da realidade, se refugiando no mundo imaginário da televisão, do fanatismo religioso, da internet, do shopping center, das drogas ou se suicidando. Essa fuga da realidade é buscada porque a agressão, a fome, o medo, o dedo no olho, a depressão e a angústia são os únicos sentimentos reais que este mundo nos proporciona. No entanto, fugir da realidade só a torna mais insuportável. Não adianta se refugiar na ilusão, é necessário parar e pensar.

Sem dúvida, as mais prolíficas tentativas de sobreviver à crise atual surgiram quando as pessoas abandonaram qualquer tipo de esperança, seja com a política, seja com as demais ilusões de que esta sociedade está farta. Só assim as pessoas deixaram de esperar eternamente que os políticos, os governos ou que pretensos âsalvadoresâ? (partidos, âfiguras carismáticasâ?, âgente que diz ter sempre a solução de tudoâ?, acadêmicos otimistas, seitas, fanáticos etc) cumprissem as suas promessas mentirosas. Elas então tiveram que desprezar esses canalhas e contar somente consigo mesmas, com suas próprias ações, buscando sua própria autonomia.

Em muitos lugares do mundo, inúmeras empresas falidas têm sido ocupadas pelos seus antigos empregados e sua produção tem sido diretamente assumida e gerida pelos próprios trabalhadores, sob um regime chamado de autogestão. Estima-se que no Brasil existem 30.000 trabalhadores em empresas sob autogestão e, na Argentina, 10.000 (segundo dados de Marco Fernandes, no texto âVento que Vem do Sulâ?). A autogestão liberta os empregados da ditadura do patrão. O destino do dinheiro obtido com a venda do que a fábrica produz é determinado em assembléias, nas quais todos os empregados têm igual direito à palavra. Desse modo se decide quanto do dinheiro conseguido pela empresa vai para os salários e quanto vai ser investido em matérias primas, máquinas etc.

Porém, a autogestão, em si mesma, não pode resolver o principal: o problema da miséria acarretada pelo desemprego. Pois a lógica que gera o desemprego permanece a mesma: se uma empresa consegue produzir mais com menos custo (menos trabalho), suas mercadorias serão mais baratas, fazendo com que as outras empresas não consigam vender suas mercadorias (porque são mais caras) e conseqüentemente sejam fechadas. Para evitar isto, buscando diminuir o preço das suas mercadorias para que sejam competitivas, a empresa autogerida tem apenas três possibilidades: a) ou diminui seu gasto nos salários (reduzindo-os e, inclusive, necessariamente, demitindo), para destinar mais dinheiro para comprar máquinas para poupar trabalho; b) ou então, aumenta o ritmo de trabalho; c) ou ainda, estas duas coisas ao mesmo tempo.

Assim, na autogestão, o patrão desaparece para dar lugar à empresa como patrão impessoal, introjetado em cada empregado na assembléia da empresa, porque esta tem de competir no mercado com as outras empresas (autogeridas ou não) e, por isso, deve manter um número de assalariados estritamente limitado para que o preço de suas mercadorias não seja maior do que o das empresas rivais, evitando que não consiga compradores e portanto evitando que não se consiga mais obter dinheiro para pagar os salários. Essa lógica implacável faz com que o número de desempregados continue crescendo, mesmo se todas as empresas se tornarem autogeridas e mesmo se o mercado se tornar um mercado alternativo (pois nos sistemas de rede de trocas, de escambo, de dinheiro alternativo etc as mercadorias continuam sendo equiparadas entre si. Por exemplo, uma empresa autogerida que oferece sabões que podem ser trocados por meia dúzia de bananas certamente vai ser mais procurada do que uma empresa que oferece sabões de mesma qualidade que podem ser trocados por uma dúzia de bananas).

Se dessa maneira o desemprego vai continuar se agravando, fazendo a miséria e a fome ser o destino inexorável da maioria da humanidade, então não há outra perspectiva senão criar maneiras de acabar com a própria lógica que gera o desemprego.

Para resolver isso, só podemos contar com nossa própria imaginação e criatividade, desprezando impiedosamente todos os vendedores de promessas (por exemplo, todos os políticos, sejam eles honestos ou não) e também todos os viciados em esperança, pois não podemos ficar esperando as coisas acontecerem, porque as coisas são coisas, não acontecem por si mesmas, não têm vontade própria.

Temos que ter criatividade: temos que imaginar o que é necessário para acabar com a lógica geradora do desemprego.

A seguir, algumas coisas que, depois de muita conversa com muita gente e depois de algum estudo, imaginamos serem necessárias para isso:

1) Se os desempregados passam fome é porque eles não encontram nenhuma maneira de conseguir dinheiro para comer. Mas é um fato bem conhecido que os meios de produção já existentes permitem produzir muitíssimo mais do que o suficiente para alimentar toda a população da Terra (no Brasil, basta observar, na beira das estradas, a quantidade de fazendas abandonadas, com máquinas enferrujando, unicamente devido a falta de competitividade no mercado, para ter a certeza de que, se estivessem funcionando, sua produção diária em calorias, divida pelo total da população, daria um número de calorias dezenas de vezes maior do que a necessidade diária recomendada pelos médicos para cada pessoa não se transmutar numa baleia).

2) Então não é por razões materiais que se passa fome e se vive na miséria. Por que é então? Muito simples: os desempregados passam fome porque existem cercas e muros que os separam dos meios de produção, obrigando-os a ficar na rua passando fome para procurar trabalho para conseguir dinheiro para comer.

3) Nada mais lógico do que a necessidade de derrubar essas cercas e muros. à claro que demoli-los não faz nenhum sentido se depois da demolição todos os desempregados não ocuparem as empresas e gerirem diretamente o seu funcionamento (autogestão).

4) Com os desempregados ocupando as empresas, haverá uma quantidade enorme de pessoas para trabalhar, sendo objetivamente impossível que cada um trabalhe durante 8 horas diárias, como hoje. Então é muito provável que uma jornada que dure no máximo 1 hora diária para cada um já seja um exagero e provoque um desperdícios descomunal, tendo que ser reduzida ainda mais. Além disso, é claro que quanto menor o tempo de trabalho, mais as pessoas vão ter motivos para fazê-lo bem feito e com delicadeza, deixando de ser para eles um trabalho, um labor, uma labuta, para ser mais um momento de prazer ao longo do dia.

5) Só que existe um pequeno detalhe: também é materialmente impossível que as empresas autogeridas consigam pagar o salário para essa enorme quantidade de gente. Para continuar pagando salários, cada empresa teria que demitir todo mundo, reconstruindo os muros e cercas em volta da empresa, para que haja uma quantidade de trabalhadores apenas suficiente para que o valor conseguido com a venda das mercadorias pague seus salários. Ou seja, tudo o que já teríamos feito seria em vão.

6) Mas é justamente aí que está o âpulo do gatoâ?: manter os muros e cercas das empresas completamente demolidos implica que o desfrute pelas pessoas do que for produzido se torna impossível através de toda e qualquer forma de troca (ex.: salário em dinheiro, remuneração in natura, bônus, banco de horas, dinheiro alternativo etc). Ou seja, o velho absolutismo da lógica do âtoma-lá-dá-cáâ?, do âeu te dou, mas vais ter que sofrerâ?, do âganharás o pão, mas com o suor de teu próprio rostoâ?, do âvocê comeu na minha mão, então vais ter que se sacrificar por mimâ?, enfim, do âtrabalharás o dia inteiro para poder consumirâ? torna-se materialmente impraticável.

7) Conseqüentemente, as pessoas terão que inventar maneiras coletivas - para além do espaço de cada empresa e englobando-as - de determinar diretamente o que, como, para quem e quanto será produzido, possibilitando assim o seu próprio desfrute. Ou seja, da mesma maneira que é impraticável no nível individual, a troca (isto é, o salário, o mercado, o dinheiro, o escambo etc) também se torna materialmente impossível entre empresas, e, por conseguinte, impossível na escala de toda a sociedade. à bem possível que a melhor maneira de determinar coletivamente a produção seja através de assembléias de bairros (a exemplo das conhecidas e combativas asambleas barriales da Argentina), onde todos os moradores têm igual direito a palavra, e que, escolhendo rotativamente delegados em cada assembléia de bairro, criam também uma assembléia coordenadora da cidade (que, por sua vez, em cada cidade escolhe delegados para participar de uma assembléia coordenadora regional, continental e assim por diante...). E isto só será possível pela abolição do Estado e das fronteiras, isto é, pela supressão do encarceramento forçado das pessoas em territórios por um órgão especializado no exercício da violência, antes necessário para que a produção de mercadorias (a troca) fosse possível (proteção armada das cercas e muros das empresas e proteção das empresas nacionais frente à concorrência mundial).

8) Assim, através dessas formas coletivas de determinação da produção, ou seja, ao nos libertarmos da troca, do mercado, e também do Estado, a relação entre produção e desfrute perde o caráter totalmente obscuro, invisível e cegamente autorregulado, que domina a todos como se fosse uma mão invisível, tal como é hoje em dia. A atual separação entre produção e desfrute massacra toda a individualidade, toda manifestação de si, pois ela não possibilita nenhuma liberdade: os produtos nas prateleiras das lojas e supermercados são completamente indiferentes à tudo o que as pessoas podem fazer, são totalmente petrificados, absolutamente desumanos, porque eles são pré-fabricados. A liberdade tão alardeada da sociedade atual é a pura escravidão de escolher entre o que já foi determinado, exatamente da mesma forma que uma cobaia presa no laboratório tem a âliberdadeâ? de escolher que caminho do labirinto pré-fabricado pelo cientista ela vai seguir.

9) Certamente a sociedade que imaginamos não será o paraíso. Com o tempo de trabalho reduzido praticamente a zero, o resto do tempo estará livre para as pessoas se associarem livremente para transformarem o mundo da maneira que bem entenderem, fazendo de cada esquina, de cada banco na praça, de cada fachada de casa, de cada chão que se pisa, de cada gesto, de cada palavra, de cada cheiro, de cada som, uma realização material-concreta da poesia, da filosofia, da beleza, da amizade, ou seja, de tudo o que não pode ter equivalentes, de tudo o que não pode ser trocado. à aí que o bicho vai pegar, porque, com a humanização do mundo concreto as pessoas pela primeira vez vão se defrontar com problemas verdadeiramente humanos, os problemas realmente radicais (que vão nas raízes, como, sem dúvida, o problema da agressividade cega que a humanidade ficou viciada desde quando começou a caçar há milhares de anos, por exemplo), problemas estes cuja gravidade nós não temos a mínima possibilidade de imaginar agora, imersos no mundo de coisas a que estamos reduzidos e ocupados com os problemas totalmente ridículos que este mundo nos coloca para enfrentar.

Bom, voltemos à âvida como ela éâ?. As pessoas costumam acusar os pessimistas de não terem nenhuma fórmula na manga para solucionar os problemas. Elas estão tão acostumadas a procurar trabalho que pretendem tratar tudo como se fosse um assunto técnico/administrativo, como se devesse existir sempre um projeto minucioso antes de fazer qualquer coisa. Mas a questão que agora a humanidade tem que se defrontar, querendo ou não, é a questão da própria existência da humanidade. Não se trata, portanto, de uma coisa, de uma matéria inerte a ser trabalhada. Aqui, não há nada pré-estabelecido: as pessoas terão de encarar de frente a realidade, por mais cruel que ela seja, para que voltem a ser capazes de imaginar.

Rio de Janeiro, março de 2004

Mais sobre o assunto:

- A Instituição Imaginária da Sociedade (Cornelius Castoriadis)
- Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista (Jean Barrot e (François Martin)
- O Colapso da Modernização (Robert Kurz)

Na internet:

-Sem Valor:

http://semvalor.cjb.net
Mira també:
http://semvalor.cjb.net

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